Leis Religiosas & Rituais

Em geral, para que servem os rituais?

O Guia: O ritual não serve para nada. É apenas um letreiro, um lembrete. É um símbolo, um convite, por assim dizer, para se meditar sobre o propósito da comunhão interior. Tente olhar o que existe além do ritual, para o significado mais profundo, o que está por trás do ritual.

Existem duas categorias de reações humanas erradas com relação aos rituais.

Há aqueles que seguem os rituais para preservarem uma segurança imaginária e falsa. Eles pensam que, seguindo o ritual, eles seguem a Consciência que está por trás dele. Isto implica numa preguiça de raciocinar e num pensamento positivo (falso) de que, com o mínimo de esforço, um efeito máximo poderá ser alcançado. Muitas pessoas pertencem a esta categoria, e não apenas aquelas das denominações religiosas. Há maneiras muito sutis de cair nessa armadilha.

Por outro lado, existem aqueles que se encontram numa categoria no outro extremo. Estes, afirmam que o ritual não significa nada – e até certo ponto eles estão certos. Porém, eles chegaram a esta conclusão porque não lhes ocorrem que algo sábio, verdadeiro, flexível e vivo possa estar por trás do ritual. Eles iriam perceber isso se estivessem dispostos a pensar e a considerar tal possibilidade. No entanto, eles nem tentam, e por isso, são tão incapazes de pensar livremente e de forma independente quanto as pessoas da categoria anterior.

O ritual, em si, não tem nada a ver com o crescimento ou com a liberdade que todos vocês irão atingir, mais cedo ou mais tarde, caso venham trabalhar neste caminho ou através de um outro. Mas a liberdade certamente virá, eventualmente, quando você estiver pronto para ver o que você precisa e trabalhar na questão que se apresentou. Então, você se aproximará da liberdade, mas não através de um ritual.

(Palestra do Guia Pathwork #70)

 

Nas escrituras tradicionais do judaísmo e do islã, os textos são específicos com relação ao consumo do peixe, carne e aves. Existe um mandamento que diz “não comereis carne”. O cristianismo não tem proibição alguma contra a carne de porco. Em Mateus15:11, Cristo teria afirmado ” O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem.” Contudo, durante a Quaresma, as restrições dietéticas são observadas pelos cristãos. Enfim, as leis dietéticas são baseadas naquilo que é impuro ou naquilo que é sagrado?

O Guia: Todas essas leis foram dadas num período em que o conhecimento científico e higiênico era tão ineficiente que tais informações, como as que a humanidade agora possui, estavam conectadas à religião. Era meramente por razões sanitárias ou de saúde que essas leis foram ditadas. Em certos períodos da história, sob diferentes circunstâncias, essas leis se modificaram. Hoje em dia, é supérfluo que a religião estabeleça essas regras. Em nenhum momento essas leis tiveram nada a ver com a vida espiritual das pessoas. Foi simplesmente uma salvaguarda para proteger a saúde dos seres humanos. Se a humanidade, nesse momento, ainda se atém a essas leis como necessidade espiritual, isso demonstra um erro grosseiro daquilo que seja a verdadeira espiritualidade. Isso mostra a abordagem superficial dos individuos e a sua pouca inclinação para pensar. A sua ciência hoje pode encontrar certas condições que torne necessário observar certas leis enquanto essas condições específicas prevalecem. Quando as condições mudam, as leis serão eliminadas. Persistir em mantê-las sem qualquer propósito ou razão seria sem sentido.

 

Qual é o significado da quaresma e da contagem dos dias?

O Guia: O significado simbólico original do tempo da Quaresma era dar às pessoas um período para que pudessem mergulhar em seu Ser interior, purificar o seu sistema, não apenas o físico, mas todos os subsistemas do Ser. Novamente, o externo é apenas um símbolo do interno.

Geralmente é saudável para o corpo e para a alma se isto for combinado, uma vez que isso seja feito de maneira individualizada, de modo consciente e pessoal, e não simplesmente aderindo a um dogma. Qualquer que seja o dogma, ele será rígido e não acrescentaria a consciência da autorresponsabilidade. Assim, tudo isso se torna algo morto. O espírito vivo se foi. O significado simbólico original era o de purificação e contemplação, um tempo de olhar para dentro do Ser, preparar-se para um novo impulso e conseqüentemente uma nova força nas descobertas.

(Palestra do Guia Pathwork #101)

 

O que dizer sobre os costumes, como por exemplo, a circuncisão?

O Guia: Não é muito difícil diferenciar as leis eternas que são retransmitidas de geração em geração através da tradição das leis que foram significativas em um momento e em circunstâncias específicas, mas que acabaram se tornando totalmente obsoletas em outro período da história; ou ainda, entre aquelas leis que precisam ser alteradas de acordo com as mudanças das circunstâncias na evolução da humanidade.

Vamos pegar este exemplo que você citou e considerá-lo à luz da sua mente profunda, do seu conhecimento interior e de toda a sabedoria que está contida em todos os seres humanos. Na verdade, é esse o processo de autonomia, ao contrário da adesão cega à tradição.

A circuncisão foi introduzida num momento em que a humanidade ainda estava em um estado muito atávico. Sacrifícios de sangue desempenhavam um papel enorme em toda a Terra. Sacrifícios de sangue amenizavam a culpa interior dos humanos por terem traído Deus e a Verdade, e por ceder às baixas tentações. Quando os antigos judeus, que adoravam a Deus como o único Criador, foram instruídos pelo Senhor para que não sacrificassem vida humana, algum sacrifício de sangue permaneceu a fim de que pudessem lidar com a culpa interior que ainda era esmagadora para a humanidade.

Não é verdade que esta lei tinha alguma coisa a ver com a saúde ou a higiêne. Este foi um raciocínio muito superficial quando o verdadeiro significado não pôde ser compreendido. Como a humanidade está amadurecendo, este tipo de expiação da culpa já não faz o menor sentido. Hoje, a consciência do ser humano esta suficientemente desenvolvida para enfrentar suas culpas diretamente e lidar com elas de forma realista.

Culpas justificadas devem ser restituídas e reparadas e, as atitudes que as criaram, purificadas e transformadas. Culpas injustificadas e deslocamentos* precisam ser reconhecidos por aquilo que são e eliminados. Sofrimento inconveniente, ou seja, o padecimento que ocorre sem ter conexão com uma causa – a culpa justificada – já não é mais necessário, adequado ou desejável.

*Nota da tradutora: Deslocamento, na Psicologia, é um termo usado para descrever um mecanismo de defesa aonde a pessoa transfere para uma outra, a emoção que sente por um outro alguém e que reprime (mesmo que inconscientemente) porque sente que é perigoso expressá-lo no momento em que está sentindo. Ex.: na escola, a criança recebe uma bronca do professor e não reage por medo mas, chega em casa e “desloca” a raiva no irmãozinho.

Neste contexto, gostaria de salientar que a circuncisão induz sofrimento ao ser humano do sexo masculino. Mas o que acontece com o ser humano do sexo feminino? Qual é o significado das mulheres terem filhos com grande sofrimento até muito recentemente na história da humanidade.

O deslocamento do “sacrifício de sangue” foi a versão feminina para a expiação da culpa existente na alma. Na época em que a humanidade tornou-se pronta para lidar com culpas de uma forma muito mais direta e eficaz, o sofrimento durante o parto tornou-se quase obsoleto – primeiro através de ajudas químicas e, mais recentemente, através de meios naturais e daquilo que tem sido chamado de parto humanizado.

Conforme foi esclarecido na Palestra do Guia Pathwork #246 “Tradição: Os Aspectos Divinos e Distorcidos”, quando as pessoas perpetuam costumes que não são mais apropriados e que devem ser substituídos por processos mais significativos, acontece um efeito muito indesejável sobre a psique, a vida da alma e a vida física daqueles que estão envolvidos: o fluxo evolutivo harmonioso é congelado.

(Perguntas & Respostas #247)

 

A maioria das religiões do mundo usam o movimento de ajoelhar-se. Muitas delas, também usam as duas palmas das mãos. Há também os padrões criados pelos dervixes rodopiantes. Será que esses movimentos têm algum significado inerente?

O Guia: Todos ritual teve, em algum momento, um significado simbólico por trás dele. Cada um dos rituais, em praticamente todas as religiões existentes, tinha um profundo significado simbólico. O problema surge apenas quando a conexão for perdida e o ritual torna-se mecânico. Então não tem mais sentido.

Quando essa conexão se perde, o ritual deveria ser interrompido, porque a mente preguiçosa assume que no ritual em si, no próprio movimento mecânico, encontra-se o ato benéfico, o ato religioso ou espiritual, que por si só irá criar uma nova consciência, coisa que não é possivel. Mas se há um significado por trás do ritual e se o significado é verdadeiramente compreendido, então, é uma coisa útil—ao menos para alguns de seus praticantes. De qualquer forma, não sera assim para todos mas apenas para aqueles que tiverem compreendido o seu significado.

 

É possível que essas posturas corporais estabeleçam novas conexões no corpo? Por exemplo, se uma pessoa se curva e coloca a cabeça abaixo do seu coração, simbolizando a submissão do seu ego, esta posição seria significativa de alguma forma?

O Guia: Digamos que, se uma pessoa entrar em uma igreja com a seguinte atitude: “Existe um poder além do meu pequeno ego, um poder vasto e infinito de sabedoria. Esse poder existe dentro de mim, ao meu redor, em cada partícula do universo. O meu pequeno ego tem uma tendência a ser arrogante, a intelectualizar para engrandecer a si mesmo”—isto é particularmente verdade nesta era de intelectualismo e mecanização—”e eu deixo de lado a vontade deste pequeno ego e quero aceitar esta sabedoria maior e estar aberto a ela, independentemente do medo ou do preconceito que carrego em mim”. Dessa forma, sim, esse movimento será significativo e relevante.

Entretanto, pode ser que uma outra pessoa faça o mesmo movimento ou postura mas, com uma intenção totalmente diferente por trás. A atitude é mais ou menos essa: “eu faço este ritual” – mesmo sem muita clareza do que se trata – “para que os outros me vejam como uma pessoa espiritualizada, religiosa e boa”. Ou ainda, o mesmo movimento pode ser realizado num espírito masoquista, doentio e fatalista de adoração de uma espécie de divindade na qual essa pessoa tem esperanças de que essa divindade vá assumir a responsabilidade no lugar do Self e livrá-la da autorresponsabilidade que precisa ser assumida e vivenciada.

Se tais atitudes existirem, a postura, por si só, não vai gerar nada singular, a menos que você acredite que qualquer tipo de movimento é melhor do que nenhum movimento. Mas, então, você pode muito bem frequentar um curso de ginástica. Porém, se o movimento for combinado com práticas religiosas, será uma coisa totalmente diferente. Se você tem um tipo de abordagem física para seu corpo e sua alma, aonde você possa expressar seus sentimentos mais íntimos, isso não é hipócrita.

Não é uma coisa de faz de conta. É uma abordagem direta para si mesmo que honra a sua verdade, aquilo que você é neste momento. E isso é válido desde que tenha o espírito e a intenção corretos. Porém, existem pessoas que se curvam, se ajoelham e fazem sinais de oração, e não há nada por trás disso. E você pode ter alguém com a mesma atitude, mas muito significativa porque é uma expressão honesta de uma bela atitude que encontra-se por trás do movimento.

(Perguntas & Respostas #178)

 

Poderia explicar o significado do sacramento da Sagrada Comunhão? É apenas um ritual ou é mais do que isso?

O Guia: Pode ser apenas um ritual e pode ser mais do que isso. Como já disse, cada ritual tem originalmente um significado profundo. Porém, a maioria dos rituais, tal como são praticados nas correntes religiosas existentes, perderam o contato com o significado, e são, na maioria das vezes, realizados de uma forma superficial, como um ritual vazio.

O ritual, em si, pode estar conectado à verdade do Eu Superior. E todos esses rituais podem ter isso. Mas rituais devem mudar ao longo dos tempos. O que era um ritual significativo por um período de tempo, acaba tornando-se vazio, porque foi repetido e repetido sem o sentimento, o pensamento e a compreensão.

Além disso, visto que as eras, o desenvolvimento e as condições da humanidade mudam, os rituais devem mudar e, desta forma, as expressões da religiosidade precisam mudar. Ao fixar o ritual, acontece uma anulação da vivacidade. Dessa forma, o mesmo conteúdo interno de um ritual reaparece em uma nova era, de uma forma externa bem diferente.

Beber o vinho e comer o pão tem o significado de ser impregnado pela consciência do Cristo. É o ritual da Comunhão com os sentimentos do Cristo e da vida encarnada do Cristo que a tudo permeia. Esta é a realidade espiritual sempre existente ao longo dos tempos e que se expressa, no presente, de vigorosas maneiras. Assim, rituais renovados e significativos devem surgir sempre – e surgem.

Nota da tradutora: a Sagrada Comunhão (“reconhecimento”, “ação de graças”) é um ritual de celebração da morte e ressurreição de Jesus Cristo feito pelas religiões cristãs. É o sinal da unidade, o vínculo da caridade, o banquete pascal, em que as religiões acreditam que seus participantes recebem o Cristo através do pão e do vinho compartilhado. A palavra Hóstia, em latim, quer dizer vítima, que entre os hebreus, era o cordeiro, sem culpa, imolado em sacrifício pelos seus pecados.

(Perguntas & Respostas #241)

 

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